domingo, 25 de outubro de 2015

A Natividade de Maria

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O nascimento de Maria (ou Miriam em hebraico) foi completamente normal. Os elementos divinos e sobrenaturais da natureza e conceção de Maria ocorreram muito antes de Ana dar à luz. Até mesmo as palavras carinhosas e a atenção da sua mãe, largamente retratados no Proto-Evangelho de Tiago, retratam uma relação intensa e amorosa entre uma mãe e a sua primeira filha. Precisamente por causa destas qualidades muito humanas, as representações deste tema dos fins da Idade Média até ao Renascimento, apresentam registos preciosos de momentos históricos e costumes, com variadíssimos detalhes de decorações interiores e vestuário. A figura realista de Ana, nunca mencionada nos Evangelhos Canónicos, era muito popular na Alemanha incluindo entre as famílias de classe social mais humilde. É por este motivo que ela foi severamente atacada foi Martinho Lutero, que procurou “perseguir imagens” para longe do coração e dovoção dos fiéis por forma a restituir a pureza das Escrituras.
As duas mulheres na parte superior da composição poderão ser Ismeria, irmã de Ana, e a filha de Ismeria, Isabel, prima mais velha de Maria que se tornará a futura mãe de João Baptista. A sua mão repousada sobre o seu ventre relembra o gesto de Isabel no momento da Visitação. Ana, ainda exausta e pálida depois de ter dado à luz, delicadamente toma nos seus braços a recém-nascida Maria. À frente, três mulheres preparam uma bacia e toalhas para o primeiro banho da bebe. As sandálias de Ana aos pés da cama são um detalhe realísta, mas pode também ter um significado simbólico relacionado com o nascimento de Maria; elas relembram as sandálias que Moisés retirou diante da sarça ardente que milagrosamente ardia sem ser consumida. A sarça foi interpretada pelos exegetas cristãos como símbolo da virgindade de Maria que “gera luz sem decair”. Outra mulher segura uma pequena toalha, sendo ao todo dez mulheres sem a presença de nenhum homem na cena.
Mestre da Vida da Virgem, A Natividade de Maria, ca. 1460. Munich, Alte Pinakothek

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O tetramorfo

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Na sua sequência canónica, os Evangelhos são Mateus, Marcos, Lucas e João e os seus respectivos símbolos o anjo/homem, o leão, o boi e a águia. As "quatro criaturas" que rodeiam o trono do Altíssimo no livro do Apocalipse (4:7-8) e que se tornaram nos símbolos dos Evangelistas tiveram origem no tetramorfo, descrito por Ezequiel. No final do século II, Santo Ireneu de Lyon, foi o primeiro a conectar o tetramorfo com o Evangelho. Ele mostrou que o leão simboliza a ideia de realeza, o boi de sacrifício; o homem a encarnação e a águia o espírito que sustenta a Igreja. Contudo, foi São Jerónimo no século IV que associou as figuras com os evangelistas. O evangelho de Mateus começa com a Encarnação portanto o seu símbolo é o anjo/homem; Marcos começa com a figura do Baptista - "A Voz do que clama no deserto" (1:3), que foi tão solitário e tão poderoso como o rugido do leão. Lucas debateu ao máximo o tema do sacrifício por isso tem como símbolo o boi e João alcançou elevada espiritualidade no seu Evangelho, que se assemelha com o voo de uma águia.
Nesta imagem podemos ver ao centro a figura de Jesus como Emperator Mundi - Imperador do Mundo - entronizado numa posição frontal perfeita. Usa manto escarlate e um globo, símbolo da sua soberania no mundo. Os pés, contudo, estão descalços para demonstrar a sua humanidade e humildade. À sua esquerda (o lugar reservado para os fracos) vemos ma figura alegórica que simboliza a Sinagoga ou a Lei de Moisés. A figura segura as Tábuas da Lei mas a sua postura é instável e o seu bastão está partido. À sua direita (o lugar reservado para os bons e justos) a figura alegórica representa a Igreja e a fé cristã. A figura serenamente segura o estandarte da vitória, símbolo da Ressurreição, o cálice e a hóstia. Também Cristo levanta a sua mão direita com os dedos indicador e médio juntos em sinal de benção. Os quatro evangelistas rodeiam-nos, representados nos seus símbolos.

Fernando Gallego," Cristo Abençoando", cerca de 1495, Museu do Padro, Madrid

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Missa de São Gregório

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A cena que encontramos mais frequentemente associada a São Gregório é a “Missa de São Gregório”, cuja lenda não seria anterior ao século XIV, pois na Legenda Áurea não é mencionada. No entanto, podemos encontrar uma história semelhante de uma mulher que não acreditava que o pão que ela mesma oferecia ao santo, e que este usava na Eucaristia, fosse o Corpo de Cristo; mas são Gregório orou diante do altar e o pão oferecido pela mulher “havia-se transformado num pedaço de carne do tamanho de um dedo”. Esta história apareceu já representada numa miniatura do séc. XII e coincide com a chegada ao mosteiro de Weingarten de uma relíquia do Sangue de Cristo e com a polémica acerca da presença real ou não de Cristo na hóstia consagrada, assunto que ficará dogmaticamente resolvido até ao IV Concílio de Latrão de 1215 em que se formula o principio da Transubstanciação. Contudo, a lenda que se torna popular no século XV e que se reproduzirá profusamente na arte conta que São Gregório estando em Roma, na basílica da Santa Cruz de Jerusalém, enquanto oficiava a uma Sexta-feira Santa, um dos assistentes terá duvidado da presença de Cristo na hóstia consagrada. Desse modo o papa ajoelhou-se e orou diante do altar e apareceu Jesus rodeado das Arma Christi – os instrumentos da Paixão – evidenciando as suas chagas sangrentas enchendo com a do lado o cálice que estava na mesa. Assim, são Gregório mandou pintar a imagem de Jesus como na sua visão e concedeu indulgências a quem orasse diante dela. Iconograficamente, esta Missa de São Gregório combina a representação do Varão das Dores, a versão ocidentalizada da Imago Pietatis bizantina. Ainda que o tema da Missa de São Gregório como símbolo da defesa do milagre da Transusbtanciaçao tenha desaparecido, a arte postridentina continuou a representar o Papa diante de Jesus mas agora como defensor da existência do Purgatório.

"Missa de São Gregório com Santa Catarina, São Tomás de Aquino e São Vicente Ferrer", Mestre do "Altar Agostinho", cerca de 1490, Nuremberga, Germanisches, Nationalmuseu

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O Anjo do Grande Conselho

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Este tema aparece pela primeira na Rússia no século XV, revivendo a iconografia Bizantina do Anjo do Grande Conselho. Cristo é retratado como o jovem Emanuel, usando o sticharion de mangas compridas e largas, ornado com pérolas. Os atributos de Cristo, o Anjo do Santo Silêncio, são uma beleza que é "a imperecível jóia de um espírito gentil e sereno" ( 1 Pedro 3:4); uma presença discreta que " Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça." (Isaías 42:2); a docilidade "Ele foi oprimido e afligido;
e, contudo, não abriu a sua boca;como um cordeiro,foi levado para o matadouro;e, como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada,
ele não abriu a sua boca.( Isaías 53:7). A ausência de qualquer pergaminho, bem como as mãos colocadas em cruz sobre o peito - a forma que os Ortodoxos assumem quando recebem a Comunhão - expressam o silêncio do Salvador e o seu convite à oração interior, inspirado pela invocação de David: " Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca; guarda a porta dos meus lábios" (Salmos 141:3) Os mais mais tardios mostram um halo em forma de estrela sobre a cabeça e asas, símbolos da energia que dá vida ao cosmos. Ambos são atributos da Sabedoria Divina.

Escola de Moscovo, Santo Silêncio, segunda metade do século XVIII, Collezione Bucceri_De Lotto.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Transfiguração

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Na sua segunda carta, Pedro definiu-se a si mesmo como uma das “testemunhas da Sua majestade”, a espetacular, inefável manifestação da glória de Deus. A Transfiguração marcou o culminar da vida pública de Jesus. Juntamente com Pedro, Tiago e João ( os mesmos três apóstolos que adormeceram quando Jesus foi preso), Jesus ascendeu a montanha e foi transformado: “e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz (Mateus 17:2) Moisés e Elias aparecerem e falaram com ele. Neste momento, Pedro exclamou, “Senhor, bom é estarmos aqui (Mateus 17:4), e ofereceu-se para lhes erguer três tendas, uma para Jesus, outra para Moisés outra para Elias. Mas naquele instante uma nuvem brilhante envolveu-os a todos e as mesmas palavras ouvidas no dia do Batismo foram ouvidas: “Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o (Mateus 17:5). Os apóstolos caíram por terra aterrados e quando recobraram os sentidos viram apenas Jesus. Termina este episódio com a cura do menino epilético.
 
Nesta pintura de Rafael, vemos a figura de Jesus ao centro da composição, vestido de luz, levanta os seus braços num gesto que relembra a crucificação. Ao mesmo tempo, ele eleva-se no ar como no Ressurreição. À sua esquerda encontra-se suspenso no ar Moisés que segura as Tábuas da Lei e à sua direita, do mesmo modo, está Elias, segurando os livros das suas profecias. Os apóstolos Pedro, Tiago e João estão no topo do Monte Tabor, mas Pedro é o único que vê a Transfiguração diretamente. Nos atos dos Apóstolos, Pedro é o único que o descreve aos fiéis. Uma criança possessa revira os olhos de forma anormal, enquanto os seus familiares e os apóstolos aguardam por um milagre. Os nove apóstolos que permaneceram na base da montanha estão impedidos de curar o menino.

Raphael, A Transfiguração, ca. 1530, Cidade do Vaticano, Pinnacoteca Vaticana

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A criação de Eva

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O Génesis situa a criação de Eva depois do repouso do sétimo dia, como se ela não tivesse sido prevista no plano inicial da criação.
Deus não extrai o seu corpo da terra como o do homem: fá-la sair de Adão para sublinhar a sua dependência.
"E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele (...) Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar;
E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão."
Os teólogos perguntaram-se porque foi Eva extraída da costela de Adão e não de outras partes do seu corpo. "Se tivesse sido extraída dos seus pés, Eva parecia inferior a Adão, e superior se tivesse saído da cabeça." Esta explicação de São Tomás de Aquino foi retomada pelo autor do S.H.S. De acordo com São Paulo e os teólogos da Idade Média, a criação de Eva que sai do flanco de Adão adormecido, é o símbolo do nascimento da Igreja que sai do lado aberto de Cristo na cruz. Esta concordância, com frequência ilustrada no século XIII nas Bíblias moralizadas e mais tarde no Speculum Humanae Salvatoris, explica porque é que a criação de Eva é mais frequentemente representada do que a de Adão.

Iconografia: Este tema comporta numerosas variantes.
1 - Adão está geralmente deitado, posto que o Génesis diz que Deus o havia adormecido durante todo o processo.
2 - O busto de Eva separa-se da costela de Adão que se expande sobre a cabeça da mulher.
3 - Eva sai totalmente formada do lado de Adão, como Atena saiu da fronte de Zeus, com a ajuda de Deus que lhe tende a mão.
4 - Eva aparece totalmente separada do corpo de Adão adormecido e une as mãos em frente ao Criador em atitude orante.
Adão e Eva, por vezes, adoram juntos o Criador ajoelhando-se diante Dele com as mãos unidas.

"A criação de Eva,'' cerca de 1488, Mestre Bartolome

domingo, 2 de agosto de 2015

Santa Maria Madalena

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Ela é identificada em várias momentos da vida pública de Cristo com variadas histórias e acontecimentos, arcando com um papel fundamental. É das poucas mulheres a quem o Evangelho refere com nome próprio, e que conheceu uma enorme transformação, pois seria a mulher a quem Cristo expulsou sete demónios, a mesmo que também acompanhou a Virgem a pé no caminho para o Calvário - participando na morte e sepultamento -, quem na manhã da ressurreição se dirige ao túmulo com perfumes e por fim a primeira a quem Cristo aparece. É identificada como sendo igualmente a irmã de Marta e Lázaro, vivendo uma vida dissoluta quando os seus pais morreram. Ao fazer as partilhas, Maria terá ficado com o castelo de Magdala daí o seu nome, até chegar à conversão, no momento alto da sua hagiografia quando lava os pés de Cristo com as suas lágrimas, os perfuma com preciosos perfumes, os enxuga com os seus cabelos - o que era símbolo da devassidão e imoralidade passa a instrumento de redenção. Depois da morte de Jesus e encontrando-se desterrada, retirou-se como eremita para um gruta onde viveu por trinta anos, comendo raízes. Com o tempo as suas roupas gastaram-se e romperam-se, sendo que os cabelo cresceram para a cobrir. Recebia constantemente a visita de anjos, que no dia da sua morte a terão levado a receber o SS, elevando-a depois ao céu.

Atributos iconográficos: O mais antigo e constante é o vaso de perfumes que quase sempre transporta, a longa a farta cabeleira, símbolo típico da mulher cortesã; As vestes amarelas - cor associada à sensualidade estão presentes também nesta imagem e em várias associadas à Santa; a Madalena penitente mostra-se com vestes andrajosas, com crânio na mão ou junto de si - símbolo da fugacidade da vida e um crucifixo junto do qual ora.Na pintura é possível perceber o crescimento dos cabelos para cobrir o seu corpo desnudo

É patrona dos perfumistas, ao qual os produtores de unguentos também reclamaram para si. Por causa do seu seu jarro, também se tornou patrono dos aguadeiros. Claro que não ficaram esquecidos os cabeleireiros e barbeiros e curiosamente dos hortelãos, pois quando Cristo lhe apareceu havia tomado o aspecto de um hortelão.

Maria Madalena penitente, Tintoretto, (Musei Capitolini, Roma, 1598-1602)
 
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